Inveja, horror, sucesso
Os meus melhores do ano de 2025
Fique à vontade! Aqui eu reflito sobre a vida, sobre a escrita e sobre os vícios que vão surgindo. (À) Vontade possui quase dois anos de existência e assinantes gratuitos recebem tudo o que é publicado, mas têm acesso apenas ao arquivo dos últimos seis meses.
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Sempre que penso em selecionar o que li, vi e comi de melhor em um ano, me questiono sobre a capacidade da minha mente de atribuir valores sem ser influenciada pelo desbotar do tempo. A impressão que tenho é de que o mais recente tem sempre mais chances de figurar nas recapitulações com todo o nosso entusiasmo. E, de certa forma, é isso que vou fazer.
Aliás, não fiz uma lista propriamente dita. Essa edição é um emaranhado das coisas que, bem recentemente, têm ressoado por aqui.
Em novembro, falei de quanto o filme A Hora do Mal (Weapons) me impressionou. Fiquei fascinada e angustiada. Fascinada pela história — que consegue dar um gostinho de uma tonalidade afetiva — angustiada pelo personagem do garotinho (Alex Lilly) cujos pais caíram nas mãos do vilão e que ele mesmo teve que alimentar e salvar.
Passei dias pensando nesse garoto, sem conseguir elaborar o que exatamente me pegava. Mas, após uma conversa, me dei conta: o que me entristecia é que ninguém viria salvá-lo, ele precisaria se salvar. Para uma criança, não contar com as figuras maternas e paternas é mesmo um pesadelo. Mas para uma adulta como eu, o que isso significava?
Eu tinha um palpite, mas a confirmação só veio quando assisti à terceira temporada de Invejosa (Envidiosa) na Netflix. Comecei a assistir à série esse ano, quando buscava algo leve para assistir na hora do almoço ou em alguma noite sozinha em casa. Não lembro quem me indicou, mas o nome estava anotado em um post-it há tempos e, um dia, dei play.
Foi paixão à primeira vista. Se eu esperei tudo de Too Much (Netflix) e terminei achando que a Lena Dunham não conversava mais com o meu tipo de doida, em Invejosa a loucura me era familiar. Mas isso não quer dizer que gostei da personagem Vicky, que é praticamente uma caricatura de todos os comportamentos femininos reprováveis ou de paranoias que não queremos deixar visíveis. Desde a cena inicial sabemos: Vicky é uma mulher que está sempre competindo com outras mulheres, chegando a ter uma crise existencial a céu aberto quando descobre que uma amiga vai casar, sem nem se preocupar em parabenizar. Ela me pareceu absurda demais, desagradável demais, até que percebi que eu também era Vicky em muitas das minhas neuroses e decidi que nós duas merecíamos amor.
Na terceira temporada, Vicky já superou muitas das suas inseguranças em relação ao amor e reviu algumas preconcepções sobre família e casamento. Ela encontrou o amor da sua vida, decidiu finalizar o curso de arquitetura e a previsão era de um futuro otimista. E é aí que a série brilha mais uma vez: Vicky continua com seus comportamentos indefensáveis, quase como se tivesse o propósito de dinamitar tudo que conseguiu, porque o sucesso ou a felicidade também assusta.
Então, A Hora do Mal e Invejosa entram num bar (ou num consultório). O garotinho que não pode contar com os pais e precisa salvar a si é uma representação da autonomia. Conquistar sucesso é também se encontrar em uma posição solitária, na qual as figuras parentais já cumpriram seu papel, e você assume a responsabilidade pelo que precisa ser resolvido.
Acho que essas histórias me tocaram tão profundamente, porque, no fim deste ano, desde que eu me dei conta de que tinha sido aprovada em um concurso que eu queria muito, me sinto assustada na maior parte do tempo. Tenho medo de tudo neste novo caminho, não saber o que fazer, não ser merecedora da posição que alcancei... Mas Invejosa vem para me prevenir da autossabotagem, e Alex Lilly, para me dizer que, sozinha ou não, ainda posso dar conta do recado.
Já comentei por aqui que sou uma medrosa diagnosticada. Mas, desde 2024, tenho encarado ler livros de terror/horror/suspense — não estou craque nas definições desses gêneros ainda — e, principalmente, consumir audiovisual. Enquanto escrevo essa edição, ainda estou saboreando o último episódio de It: Welcome to Derry (HBO Max) e, por mais que essa série seja terror e susto demais pra mim, não é uma história ótima de acompanhar? Ao mesmo tempo, finalmente estou lendo As coisas que perdemos no fogo, de Mariana Enríquez, amando tudo e me convencendo cada vez mais de que a vida das pessoas subalternizadas é o verdadeiro terror.




Me reconheci nesse medo adulto de ter que se salvar sozinha e, ao mesmo tempo, na delicadeza de aceitar que dá conta, mesmo tremendo. Fiquei com a sensação de que crescer é isso: seguir assustada, mas seguindo...